sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Dia 07/01/2011 - Acabou (Um longo dia sob sol e chuva, a recepção em Birigui, muitos km até em casa).

Ao contrário dos dias anteriores, já vou começar dizendo o quanto rodamos neste dia.
Eu rodei 1350 km e o André quase 1600 km!

Cruzar de Corumbá-MS até Três Lagoas-SP rendeu muito, mas depois que entramos em SP, pela Rod. Marechal Rondon a viagem não rendeu mais, passamos por 11 pedágios (pagos e caros) em um trecho de apenas 400 km! Diferentemente dos dias anteriores, não vamos narrar aqui todos os quilômetros rodados, pois é um trecho dentro do Brasil e bastante conhecido.

O que temos a ressaltar, é claro, é o Pantanal entre Corumbá e Aquidauana, onde a fauna às margens da estrada é abundante.  Justamente por este motivo, o início da viagem foi tenso, como saímos cedo de Corumbá, pegamos a pista sendo invadida pelos animais que cruzavam a estrada (buscando seu desjejum, julgo eu). Eu que ia na frente tentava justamente manter uma velocidade segura, pois a todo momento surgiam animais no acostamento ou sobre a pista, principalmente pássaros. Em alguns trechos eu ia buzinando tentando espantá-los, mas muitos deles esperavam a moto chegar perto para tratarem de se mexer.

Foi em razão deste cenário que, tivemos um incidente (quase um grave acidente).  Eu vi um animal no meio da pista à distância, soltei um pouco o acelerador e fiquei tentando entender para que lado ele iria. Quando eu estava mais próximo, vi que era um filhote de capivara. Como ele estava com a cabeça para o lado direito, e não vinha carro no sentido contrário, apontei a moto para o lado esquerdo, só que ele virou e correu para lá, instintivamente eu freei, e fui para a direita desviando dele. Quando olho no retrovisor, vejo o André quase me tocando à direita e com o guidão da moto balançando violentamente.
Tendo a capivara escapado, acelerei e saí para a esquerda, mas julgava que o André iria cair, mas ainda bem que ele pilota muito e instintivamente aliviou o peso sobre o guidão e acelerou, assim a moto voltou ao controle. Paramos no acostamento e eu não sei quem de nós tremia mais, por muito pouco não sofremos um grave acidente, nós dois, ou nós três (incluindo a capivara).

Depois que nos acalmamos entendemos o que aconteceu, o André estava próximo e reagiu desviando para a direita, só que a capivara lançou-se na direção onde julguei que ela não iria, sem o ver, desviei para cima do André e freando...

Como eu disse para ele, apesar de estar uma manhã linda, eu estava tenso desde que pegamos a BR-262, justamente por causa dos animais. Atropelar um pássaro não é agradável, porém estando de moto, atropelar um mamífero pode ser fatal, para ambos!

Fica aqui a dica, não adianta cruzar o pantanal muito cedo, o risco de atropelar alguém é enorme, à noite então, acho que é uma temeridade. A quantidade de animais mortos na pista é absurda, inclusive horas depois cruzamos por um enorme porco do mato que deve ter sido morto por um caminhão, pois se fosse um carro, o mesmo estaria parado lá e muito avariado, tal o tamanho do bicho.

Às margens da estrada em pequenas lagoas, pode-se ver garças, tuiuiús e jacarés aos montes, a estrada é boa e as grandes retas convidam a acelerar, mas melhor não!

De qualquer forma, mesmo tendo segurado um pouco a velocidade no trecho inicial, conseguimos manter uma ótima média horária, assim tendo saído de Corumbá às 05:30 h, chegamos à Três Lagoas por volta das 14:30 h, foram 780 km em 9 horas.

No caminho, paramos apenas para os abastecimentos, um café em Miranda e uns pasteis no anel rodoviário de Campo Grande, pois passamos por fora de Campo Grande. Depois dali, começaram as chuvas, muito fortes em alguns trechos, fomos assim entre estiagens e trombas d'água.

Quando chegamos à Três Lagoas, paramos em um posto antes da barragem, o sol era escaldante, subimos as motos na calçada sob a cobertura de um restaurante, ali comemos umas esfihas e esticamos um pouco as pernas. O dono do restaurante apareceu e reclamou de as motos estarem sob a cobertura, lhe expliquei que tínhamos equipamentos eletrônicos nos bauletos e não havia uma sombra, de qualquer forma já estávamos de saída. Ele foi educado, mas chato, ao contrário da senhora que atendia no balcão, muito amável e sorridente.
Na Barragem de Três Lagoas, divisa MT Sul - SP
Já estamos no estado de São Paulo !
Não pudemos nos dar ao luxo de um bom descanso, tínhamos feito um pouco mais da metade do caminho e, como estava rendendo, achamos que poderíamos chegar se não em casa, muito próximos.
Só que aí não rendeu mais, a cada 30 km parávamos em um pedágio, só quem anda de moto sabe a tortura que é pagar pedágio, estando em cima de uma moto! Virou uma rotina, pancadas de chuva, estiagens e pedágios, no fim da tarde, umas 17:30 h, chegamos à ponte de acesso a Birigui.

Paramos no acostamento e o André ligou para o Lucas, queríamos avisá-lo que pretendíamos seguir mais, antes de anoitecer, pois nos faltavam mais de 500 km ainda, porém ele pediu que esperássemos. Veio gentilmente até nós com o seu pai na garupa da sua DR e seu irmão veio com a Virago, nos trouxeram um garrafão com água gelada. Conversamos bastante, tiramos fotos e depois eles nos "escoltaram" até a cidade de Coroados. Nos filmaram e colocaram o filme no Youtube!

Sinceramente, gostaríamos de ter passado por lá mais cedo, assim teríamos os visitado em casa, de qualquer forma vamos lembrar para sempre da calorosa recepção!

Parada passando por Birigui
O Lucas seu pai e seu irmão foram nos recepcionar


A noite se aproxima, hora de partirmos
Depois de Birigui, logo a noite caiu e as chuvas também, novamente a rotina, chuva e pedágio, agora agravada pela escuridão da noite. Por este motivo a viagem passou a render menos ainda e fomos parar no posto Cuesta da Castelo Branco lá para as 23:30 h!

Antes disto, paramos em em um posto em Lins e em uma casa de apoio ao usuário em Lençóis Paulista, onde o André ficou contando piadas aos funcionários enquanto tomávamos um cafezinho quente.
Nós tínhamos chegado lá, molhados, como chovia!  Tremíamos de frio.

O André tinha aceito a ideia de dormirmos em Torre de Pedra, pois havia a casa de um dos irmãos da Marlene disponível, mas ele mudou de ideia e disse que iria um pouco mais.  Estávamos mortos de cansaço,  então seguimos à diante e eu entrei em Torre.
Nos despedimos ali mesmo, no acesso, não sem antes o André me garantir que ligaria, não importava a que horas fosse quando chegasse em São Paulo.

Foi um final melancólico para uma viagem tão boa, mai ele tinha urgência de chegar, apesar da minha preocupação.  Depois só me lembro de ter acordado na madrugada, e atendido o celular para ouvir o André dizer, cheguei abraço!  Eu só cheguei em Guarulhos - SP no dia seguinte, ainda abaixo de chuva!

                                          <<<<<<<  Considerações finais  >>>>>>>>
Quando não conhecemos algo pessoalmente, formamos um imagem mental que é a nossa referência.
Eu já tinha visitado Buenos Aires e imediações muitas vezes à trabalho, bem como Santiago duas vezes, também à trabalho. Assim, eu tinha apenas uma imagem mental do norte da Argentina (Chaco) e do norte do Chile (Atacama). Com relação ao Peru e a Bolívia a situação era, digamos, folclórica, uma vez que as informações que nos chegam sempre enfatizam a pobreza e o atraso.

A Bolívia e o Peru fizeram parte dos meus sonhos de adolescente, cheguei a planejar uma viagem com o trem da morte na década de 80. Teria sido uma experiência enriquecedora, porém hoje com mais maturidade acho que aprendi muito mais, claro que os tempos são outros e há um abismo entre a quantidade de informações que tínhamos a três décadas e o que temos hoje. Felizmente também, a América do Sul mudou bastante desde aqueles tempos, para melhor claro.

Eu tinha um interesse pessoal pelo Chaco, por tudo o que já havia lido a respeito e, eu julgava que além disto havia muito mais coisas interessantes, desta forma partimos (o André e eu) para esta viagem com três objetivos principais:

- Cruzar os Andes por terra (literalmente, pois escolhemos o Paso de Sico).
- Conhecer o deserto do Atacama.
- Conhecer o oceano Pacifico.

Havia também os objetivos, menores (mais nem tanto) de conhecer o Perú, principalmente a quase mitológica Machu Picchu, e a Bolivia que devia ser um lugar perdido no tempo, era até motivo de preocupação, juro !

Como vocês puderam ler nos relatos anteriores, os objetivos foram atingidos e algumas surpresas vieram, principalmente em relação a Bolívia que passou longe da nossa imagem mental.

O Chaco argentino não foi monótono como esperávamos, cruzar os Andes por um caminho como o Paso de Sico foi uma realização, desgastante fisicamente, mas recompensadora.
O Atacama é lindo, surpreendente, mas como disse antes, é bruto!

O Pacífico era o que esperávamos, eu imagina olhar para ele e ver o infinito, e é assim mesmo, porém o que estranha é o encontro dele com o deserto, para nós que somos acostumados com as praias verdejantes do Atlântico, aquilo lá é algo surreal.

A Argentina com sua população de 40 milhões de habitantes, como todos sabem é a segunda potência Sul Americana, atrás apenas do Brasil que, na realidade é o que é, devido a sua enorme população de 190 milhões de habitantes e a sua extensão territorial.

A população argentina se concentra a região de Buenos Aires, eu imaginava que o norte (Chaco) fosse bem menos habitado do que vimos ser. Para os argentinos o Chaco é distante como para nós é o Acre, por exemplo.  Claro que o Chaco tem sua história devido à posição estratégica limítrofe com o Paraguai, que já foi uma potência no século 19, daí a existência das hoje grandes cidades como Posadas, Corrientes e Resistência (na confluência dos importantíssimos rios Paraná e Paraguai). Além claro, de Salta, já aos pés dos Andes. Nós gostamos muito de cruzar esta região, os Andes do lado argentino são o que nós já esperávamos, os Andes.

O Chile é de longe o país mais organizado da América do Sul, os chilenos são muito eficientes, pois sempre conseguiram fazer muito com pouco. A geografia do país é desfavorável à infra-estrutura (são 4300 km de comprimento, por 175 km de largura em média, cercado pelos Andes e pelo Pacifico) porém é uma maravilha da natureza. A eficiência chilena, pode ser constatada desde a época da exploração do Salitre e a guerra do Pacífico, como relatamos na postagem do dia 25/12/2010 da nossa viagem.
Eles avançam, e hoje são exportadores de frutas, vinhos e claro, minérios. Sua pequena população (16 milhões de habitantes, menos que a da grande São Paulo) não é suficiente para garantir mercado para uma industrialização de produtos tecnológicos, como temos no Brasil, então eles valem-se da exportação de produtos de base.

Para vocês terem uma ideia quando cito a eficiência deles, no ano passado 2010, a Lan Chile começou a negociar um processo de fusão com a TAM, a maior companhia aérea do Brasil, isto porque a legislação brasileira permite que até 20% das ações estejam nas mãos de capital estrangeiro, do contrário a Lan já seria a detentora da maioria das ações da TAM e pronto!

No Peru, infelizmente não conhecemos Lima a capital e Arequipa, porém conhecemos o vale de Moquégua, que é economicamente muito importante, é um oásis produtor agrícola no meio daquela região desértica. Depois conhecemos o altiplano, ainda bem que não encontramos nenhum guerrilheiro do Sendero Luminoso ou Tupak Amaru (brincadeira).  Lima a capital, e que nós não conhecemos, detém aproximadamente 8 dos 29 milhões de habitantes do país, portanto é uma metrópole com um centro econômico moderno. Porém imagino o caos do trânsito por lá, já que em cidades muitas vezes menores, a coisa é feia devido a cultura deles ao volante...

Como vocês devem ter lido, nós detestamos Puno e o Titikaca peruano, achamos que Cuzco não foi grande coisa, na realidade foi menos do que esperávamos. Mas Machu Picchu sim, é o que dizem, vale a pena visitar. De qualquer forma, uma vez que nós agora conhecemos Machu Picchu, não temos mais planos de retornar ao Peru, não tão cedo. Mas vale ressaltar que é um dos países mais baratos de se visitar, não só pelos preços baixos como pela valorização da nossa moeda frente ao Sol (moeda peruana).
O Peru de hoje está evoluindo economicamente, o problema ainda é concentração de renda,  pois aproximadamente 40% da população, vive ainda na linha de pobreza.

A Bolívia é um caso a parte, nós não visitamos o seu deslumbrante circuito das lagunas altiplanicas e o salar do Uyuni, isto requer uma viagem futura. Na realidade, nesta viagem que acabamos de fazer, a Bolívia era só uma passagem na volta para o Brasil, mas havia o Chaco boreal a ser desvendado, e o foi.

Com seus atuais 10 milhões de habitantes, a Bolívia é um país ainda pobre, apesar de que não vimos esta pobreza de forma flagrante, e isto nos impressionou. Na realidade vimos pobreza, não vimos miséria, eu achei isto bom. Santa Cruz de la Sierra é decididamente uma cidade grande e rica, por isto havia lá recentemente um movimento separatista.
O Chaco é mesmo uma vestidão, não fosse o asfaltamento de ruta 04 até Puerto Suarez (corredor Santos - Iquique), não haveria como cruzá-lo a não ser com o Expresso Oriental (o trem da morte) como foi por muitos anos até recentemente.
Bem, decididamente tanto o norte do Chile como a Bolívia (lagunas) são merecedores de uma nova viagem futura.

                                       <<<<<<< Um pouco de história >>>>>>>>
Lembram-se dos imigrantes europeus que tanto me intrigaram no Chaco boliviano?
Pois bem, depois de pesquisar descobri quem são. São alemães da Igreja Evangelica Irmãos Menonitas  (que foram para o Chaco Paraguaio no século 19).  São Arianos, e tem por tradição a proibição do uso de novas tecnologias, pois acreditam que são instrumentos diabólicos... Sem bem que os vi usando tratores, bem novos por sinal, mas os que os usavam eram jovens. Já os mais velhos, só os vi andando naquelas carroças com pneus de borracha. Pelo jeito, o século 21 irá quebrar suas convicções, os jovens são abertos às novidades, e isto é o que não falta nos últimos tempos.

Uma coisa que muitos não imaginam, é uma guerra recente entre dois países sul americanos, mas aconteceu.
Enquanto no Brasil rolava a revolução constitucionalista, bem ao lado acontecia a Guerra do Chaco!

Guerra do Chaco, de Junho de 1932 à Junho de 1935, onde o Paraguai anexou os territórios ao sul de Santa Cruz até a divisa com o Brasil, o Chaco Boreal. Isto foi por causa da descoberta de petróleo na região?   Não!  Foi porque a Bolívia queria o livre acesso ao rio Paraguai.

Novamente, a incompetência politico militar boliviana lhes causou um imenso estrago.
Não podendo fazer frente ao Chile, a Bolívia partiu para cima do enfraquecido Paraguai, uma ex-potência sul americana no século 19, que foi destruída pelo Brasil, Argentina e Uruguai, motivados por fortes interesses políticos e econômicos ingleses, a infame Guerra do Paraguai.

Tendo perdido o acesso ao Oceano Pacifico, decidiram tomar posse da região do rio Paraguai. Assim, a Bolívia teria livre acesso ao Oceano Atlântico pela bacia do Rio da Prata. Já para o Paraguai, que havia ocupado o Chaco com assentamentos agrícolas (os imigrantes alemães Menonitas), além de ter construído algumas ferrovias pelo interior do Chaco, para transportar toras de quebracho para rio Paraguai. Manter o Chaco era questão de sobrevivência nacional. Como já havia perdido 40 % do seu território na guerra de 1870, perder o Chaco significaria deixar de existir como pais.

A Bolívia tinha uma população três vezes superior à do Paraguai e estava mais capitalizada.
Novamente, os bolivianos fizeram tudo errado, pois confiaram o comando do exercito à um alemão, o General Kundt, que tinha experiência da primeira guerra mundial, mas era um fraco estrategista.
Ele achava que com a sua superioridade numérica, era só descer os Andes com seu exército e marchar sobre os pobres paraguaios.
Já os paraguaios, com menos recursos, mas comandados por José Estigarribia, usaram o terreno a seu favor e promoveram uma guerrilha.
O Chaco é um lugar quente, de dificil locomoção, infestado de insetos e serpentes, a água potável é escassa.  Imaginem na década de 30, descer um exército mecanizado desde La Paz para aquele fim de mundo!  Os soldados bolivianos tiveram de marchar 500 km pelo Chaco, e os cavalos novamente, igual ao que aconteceu na guerra do Pacífico, morriam devido à falta de água e pastagem. Os paraguaios tinham a vantagem de poderem usar o rio Paraguai e as sua ferrovias, daí que seus poucos soldados e suprimentos, chegavam ilesos ao front.
Este foi o primeiro conflito sul americano onde foi empregada a aviação, ambos os países haviam comprado caças e bombardeiros ingleses, franceses e norte-americanos. Porém a aviação, no resumo geral, ainda era incipiente, mas teve um papel importante na vastidão do Chaco.  No caso paraguaio, pelas informações táticas obtidas por vôos de observação, que do lado boliviano eram ignoradas pelo General Kundt.
Porém, quando os bolivianos bateram em retirada, foi a sua aviação que impediu que os seus soldados, fossem massacrados pelos paraguaios que os perseguiam. Mas a decisão final da guerra mesmo, coube à estratégia paraguaia de lutar pelos lados e de tomar os mananciais de água.

Assim, após três anos, com ambos os países exauridos, a Bolívia percebeu que não tinha mais chances.
Então um acordo de paz foi mediado, e o Paraguai anexou quase todo o Chaco Boreal.

Novamente, os bolivianos perderam uma parte significativa do seu território e continuam sem acesso marítimo (que aliás já tiveram, e perderam porque foram se meter com os chilenos).

Eu já havia lido muito à respeito da guerra aérea no Chaco, por isto tinha muita curiosidade de conhecer a região. Queria entender o que de tão hostil tinha este lugar no mundo, finalmente entendi, são o calor e a vastidão!

                                             <<<<<<<  Nos dias atuais  >>>>>>>>
Há um grande projeto em marcha, marcha lenta diga-se de passagem, que é o corredor Santos - Iquique.
Este projeto que nasceu em um acordo assinado em dezembro de 2007, entre o Lula, o Evo Morales e a presidente do Chile, Michelle Bachelet. Éra uma ideia antiga que, previa uma ferrovia, um gasoduto e uma rodovia, com objetivo de facilitar as exportações para a Ásia e também para que a Bolívia pudesse exportar gás para os EUA (Califórnia).
Ao que parece, o projeto ficou inviável neste formato, isto devido aos custos da ferrovia e também porque mais uma vez, a Bolívia tomou um rumo politico adverso, estatizando as refinarias de gás, incluindo as da Petrobrás.
Obviamente que, os EUA perderam o interesse em um parceiro que quebra as regras contratuais.
Lembram-se da história das usinas de salitre? Que foi o que gerou a guerra do pacifico?
Pois bem, acho que a Bolívia não aprende...
Pelo menos no tocante à rodovia, o que vimos foi o investimento na ruta 04 no Chaco boreal, onde apenas o trem da morte cruzava os 700 km de Corumbá até Santa Cruz.  Dalí em diante a ligação transoceânica faz uso da infra-estrutura já existente.  Estranhamente, no Peru, aquele trecho novo entre Moquégua e Puno, também recebe este nome, daí que posso concluir que toda a malha rodoviária da região está sendo aproveitada.
De qualquer forma, é ótimo para todos os países, é uma quebra de isolamento importante. O Chile tem acordo de livre comércio com vários países asiáticos. A Bolívia está sendo beneficiada, ao que parece, tanto pelo Brasil como pelo Chile, pois o governo Lula sentiu a necessidade de promover esta integração, mantendo-se assim líder no cone sul. Já o Chile, tem o assunto pendente do acesso ao mar, que tomou do Bolívia na guerra do pacífico. Obviamente que este projeto ajuda a minimizar as tensões entre estes dois países (isto é minha opinião pessoal, analisando os dados históricos).
O Chile já concedeu à Bolívia um terreno de 10 acres no bairro de Alto Hospício, em Iquique, para a instalação de um complexo aduaneiro boliviano, anexo ao importante porto chileno.  Com o vimos também em Arica, existem as boias do oleoduto boliviano onde operam navios fornecedores de petróleo à Bolívia, e também a antiga linha férrea Arica - La Paz (hoje em desuso).
Hoje, na prática, o corredor rodoviário já existe, são 3314 km de distância entre os dois portos, Santos e Iquique, dos quais apenas 37 km estão ainda por asfaltar (lá onde comprei o meu terreno na Bolívia), porém existe um desvio por asfalto, o que torna o corredor efetivamente disponível para os caminhões.
Falta agora, a definição de normas aduaneiras e sanitárias homogêneas entre os três países, para que haja a completa efetivação.

                                        <<<<<<<  Agradecimentos  >>>>>>>>

Claro que devemos, o André e eu muitos agradecimentos, às nossas famílias por nos "liberarem" justamente nas festas de Natal e fim de ano. Sabemos que não foi fácil, mas era a nossa única oportunidade em 2010.
Sabemos o quanto as esposas e pais ficaram aflitos com a nossa distância, e nós também.

Agradecemos ao Marcelo Gulbert, o inspirador e mestre de todos os viajantes que conhecemos, além da hospitalidade dele e da sua mãe, Dona Loreci.  Fica aquí também o agradecimento ao Gaúcho de Medianeira, que parou o seu trabalho para salvar nossa viagem com umas soldas providenciais.

Ao TAZ Machado, que nos incetivou e até deixou sua Suzi em casa como "spare part", caso tivéssemos algum imprevisto grave. Ele disse, podem desmontar e mandar por correio qualquer peça dela!

Ao Lucas Bulgueroni, seu irmão e seu pai, pela calorosa recepção em Birigui na nossa volta.

A Vanda e a Regiane, que nos deram o nosso macote e "cão de guarda" o Scooby.

A Vanda e o Alexandre, que seguraram minha onda no serviço e permitiram que eu viajasse tranquilo.

Este blog foi escrito em dedicação à vocês,  e para que pudéssemos compartilhar nossas experiências.

A todos vocês, o nosso muito obrigado mesmo!

O odômetro no encontro com o André, inicio de viagem 67.571 km

Odômetro após a chegada em casa, 76.640 km.
A Suzi em casa, vai descansar por um tempo
                                                             >>>>>>> Fim da aventura <<<<<<<<<

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Dia 06/01/2011 - Entramos no Brasil, mas não saímos da Bolívia (um dia entre Corumbá e Puerto Quijarro).

No planejamento original da viagem, este seria o dia em que deixaríamos Corumbá, e seguiríamos rumo a Campo Grande, distante 450 km.

Como na noite anterior a imigração boliviana estava fechada, decidimos resolver isto logo pela manhã e, após o almoço, seguirmos para Campo Grande. Podíamos ter ido embora sem realizar os trâmites de saída da Bolívia, mas tínhamos feito tudo certinho até aqui, e também não queríamos ter problemas em uma possível nova viagem através deste país.

Como nos informaram que a imigração lá reabriria às 08:00 h, tomamos café com calma, de fato neste hotel nos sentíamos em casa. Obviamente que não montamos as bagagens nas motos, pois se não nos revistaram ontem, não será hoje que vamos dar moleza.

Na nossa planilha de viagem tínhamos que trocar o óleo das motos em Corumbá, por isto no caminho para a fronteira começamos a procurar óleo. Como não achamos, fomos em frente e quando chegamos na aduana / imigração bolivianas, estava tudo lotado.

Estacionamos as motos como se estivéssemos vindo de dentro da Bolívia, não foi intencional, apenas era a opção que tínhamos. Quando íamos cruzar a pista para entrar no prédio da aduana, quem para na nossa frente?  A Hilux que estava lá no estacionamento do hotel Suiza em Santa Cruz, novamente o motorista parou sorrindo e nos cumprimentou, perguntei a ele como tinha sido a viagem, e disse que ele tinha passado exatamente pelo que passamos, o trecho de terra, depois 1 hora e meia na fila do combustível em Roboré etc. Mas tinha vindo bem, tinha chegado por volta das 17:30 h (um pouco antes da gente) mas a imigração boliviana estava fechada, então como nós, tinha voltado para fazer a saída oficial. Nos despedimos e, novamente nos desejamos sorte mutuamente.


Puerto Quijarro, vista da imigração boliviana

Fomos lá na aduana, que é uma pequena sala em um prédio térreo comprido, lá havia um guarda do lado de fora, mas mesmo assim, não demos bobeira com os capacetes e documentos, enquanto um fazia os trâmites o outro esperava do lado de fora. Foi simples a saída, logo a moça que nos atendeu fez a liberação das motos, não sem antes claro, termos de tirar uma fotocópia dos documentos, daí carimbou e nos liberou.

Na volta desta sala, vimos estacionadas ao lado das nossas, duas outras motos, uma XRE-300 e uma Falcon. Os pilotos dois brasileiros, jovens mesmo, estavam vindo de Vitória e iriam fazer mais ou menos o nosso percurso que nós, porém no sentido inverso. O piloto da Falcon já tinha experiência com Argentina e Uruguai, o outro que era seu irmão, e estava com cara de apreensivo.
Lhes informamos sobre o combustível, que só encontrariam em Roboré etc. Eles tinham na bagagem um galão cada um, lhes recomendamos encher até a boca. Eles nos deram adesivos da "expedição" deles, como nós não tínhamos feito para a nossa, ficamos lhes devendo. Eles disseram que iriam, lá no Orkut, atualizar os dados da viagem em uma comunidade, lhes desejamos boa sorte.

Faltava agora a imigração, aí a coisa foi complicada, era uma sala bem no meio das pistas de entrada e saída do país. Estava lotada de gente, não havia fila e era uma balburdia, ficamos meio perdidos entre duas mesas sem saber em qual nos atenderiam, até que um rapaz chamou todo mundo para a mesa próxima à porta. Houve uma tentativa de formar-se uma fila, mas logo os espertinhos, estrangeiros, e não os bolivianos diga-se de passagem, promoveram a bagunça novamente.

No meio daquela confusão, de repente, ouvimos um estrondo enorme, som de pneus arrastando e metal sendo esmagado, era como se um caminhão tivesse engavetado vários carros. Na hora lembramos, as motos!  Elas estavam estacionadas entre as pistas e em um lugar vulnerável. O André que estava mais próximo da porta, me fez sinal e foi correndo lá fora ver o que tinha acontecido.
Depois de alguns angustiantes minutos ele voltou e disse que as motos estavam intactas, o problema era outro. De fato foi um caminhão, porém, este ao passar pelo prédio da imigração, enroscou a carga em um corrimão na parte superior do prédio e saiu arrastando tudo.  Menos mal, diante do susto, aquela bagunça para carimbar o passaporte virou fichinha.

Finalmente conseguimos o carimbo de saída nos nossos passaportes, estamos oficialmente fora da Bolívia, porém perguntamos se mesmo assim poderíamos ir até a zona franca em Puerto Quijarro, nos disseram que sim. Claro quem sim!  Se é para deixar dinheiro na Bolívia, por que não?

Quando fomos pegar as motos pudemos ver os estragos, era uma carreta do Brasil, puxada por um velho Volvo NH, a carga era um pulverizador da Jacto (lá de Pompeia interior de SP). Um dos braços do pulverizador havia se soltado e estava um pouco para fora da carroceria, quando o motorista passou sob a apertada cobertura, o braço enroscou no corrimão da sala superior do prédio, arrancou o corrimão e fez entrar tudo pela janela de vidro. Sorte não haver ninguém alí no passadiço no momento do incidente.

Isto foi na pista de entrada, mas como já estávamos dentro da Bolívia, seguimos a avenida e à poucos metros já viramos à direita como nos haviam indicado. Pegamos uma avenida de duas pistas, logo no início há um comércio e daí vimos uma loja de peças de motos. Fomos lá, pois o André queria ver o preço dos pneus, foi aí que eu vi o óleo Motul 3000 que eu uso na Suzi. Eu acahava que só iria encontrar no Brasil, mas melhor que isto foi o preço, paguei 45 bolivianos em três litros, o que dá aproximadamente uns 15 reais nos três, no Brasil são 18 reais por litro! O André desistiu de trocar os pneus, apesar dos preços atrativos.

Seguimos em frente e passamos pela estação ferroviária, a primeira estação do Trem de La Muerte (na realidade se chama Expresso Oriental). Já neste trecho, a avenida tem mais terra que asfalto, chegamos ao freeshop da zona franca.  Estacionamos as motos sob a sombra de uma árvore e fomos às compras. Eu não tinha pretensões, já o André, sabe, adora umas compras, mas no final das contas eu acabei comprando mais do que eu podia carregar!  Cremes para dar de presente, um barbeador novo e até uma Dremel edição de aniversário. Entre o freeshop (Shopping China) e a Miami House, queimamos todos os bolivianos que nos restavam e mais uns reais no cartão de crédito.


Pátio de manobras do Expresso Oriental (Trem da Morte)

Estação Ferroviária de Puerto Quijarro
Nossa preocupação era com a cota na Receita Federal brasileira, partimos dali com os baús cheios e mais umas sacolas penduradas.
Na imigração boliviana, passamos direto, cheios de sacolas e vindo de dentro da Bolívia, para eles está ótimo.
Quando chegamos na Receita Federal brasileira eu ví o fiscal à direita, daí joguei todas as sacolas para o lado esquerdo de forma que ele não viu, daí que nem nos parou, passamos direto. Puxa! Dava para ter trazido a Bolívia inteira na bagagem!


Receita federal brasileira, passamos batido cheios de sacolas

Aliviados, seguimos de volta para o hotel, o problema agora, pelo menos para mim, era conseguir arrumar a bagagem. Tínhamos ainda que trocar o óleo das motos, que estavam cheias de barro. O calor de Corumbá é absurdo, como havíamos perdido muito tempo entre a imigração e as compras, resolvemos almoçar.
O André sugeriu uma churrascaria, e claro, achamos uma fácil.

Claro que depois de uma churrascaria em uma dia com um sol de uns 40 graus, deu uma moleza daquelas, mais tínhamos que fazer a manutenção "preventiva" nas motos.
No estacionamento do hotel havia uma cobertura, nós posicionamos as motos lá e fomos à rotina de trocar o óleo (tínhamos trocado em Cuzco no Peru), limpar a corrente e o filtro de ar. O Sol era implacável, daí que deixamos os filtros ao sol por dez minutos e já estavam secos. Qualquer peça metálica que ficasse ao sol não podia ser tocada de tão quente que ficava.

Porém, mesmo depois da manutenção, as motos ainda estavam entupidas de barro seco e poeira.
Quase em frente ao hotel há um lava-rápido, fomos lá ver quanto era para lavar as motos, porém a minha exigência era que eu mesmo lavasse. Já tive uma má experiência com a Suzi em lava-rápidos, além de derrubá-la, quase destruíram o radiador de óleo com o jato de alta pressão. O proprietário insistia que ele lavaria, mai não dava o preço, aí quis ir ver as motos. Levamos as motos até lá e pegamos a mangueira, na realidade só jogamos água para arrancar o barro, não foi uma lavagem completa, mesmo assim ele cobrou 20 reais!

Havia lá dois sujeitos sentados tomando cerveja, um deles falador, não me lembro porque, disse que o mundo estava perdido por causa dos três. Eu perguntei quem?   Ele respondeu rindo com ar de quem estava falando a maior verdade, o negro lá em cima, a mulherzinha aqui e o índio no paizinho aqui do lado!
O André olhou pra mim, esperando a minha reação. Claro que meu estomago embrulhou, pensei por um minuto, mas resolvi, acho que pelo cansaço, deixar para lá. Não disse nada, porém mais tarde me arrependi, devia ter ido pra cima daquele idiota como um rolo compressor. Dei lhe as costas e fui cuidar da moto.
Mas o cretino continuava a falar, até que falou  umas besteiras sobre crise financeira.
Eu não sou economista, mas procuro me manter informado, pois gosto de história, politica e geografia (três coisas que caminham juntas). Despejei em cima daquele sujeito um caminhão, no final ele me disse, com os olhos arregalados, nossa eu não sabia!

Eu não disse mais nada, mas devia ter-lhe dito que um dos meus avôs era mulato, uma das minhas avós era índia e que eu não tenho nada contra mulheres no poder...  Desde que não seja minha chefe!  Brincadeira, eu já tive chefe mulher, para mim não faz diferença, desde que entenda do assunto.

Saímos dalí e paramos na parte coberta do estacionamento, um enorme galpão, daí como já eram umas 14:00 h, não tivemos coragem de montar tudo nas motos e partir para Campo Grande. Na realidade, mesmo que quiséssemos, não conseguiríamos, pois tínhamos que ajeitar as compras na bagagem.
Pensamos bastante, então decidimos mudar os planos, no dia seguinte passaríamos direto por Campo Grande e iriamos dormir em algum lugar já em SP, assim iriamos recuperar o tempo e por outro lado, meio dia de viagem não era muito, afinal não fosse a imigração boliviana, teríamos só dormido em Corumbá e já estaríamos em Campo Grande.
O André estava bastante preocupado com a mudança de casa que iria realizar, daí que a partir de agora ele precisava voltar logo.

Não dava para ficar ao sol cinco minutos, nos fundos do hotel há uma boa piscina, acabamos indo para lá, depois de uns mergulhos ficamos à sombra conversando, isto por muito tempo.  Como o tema era uma das minhas paixões, aviação, não ví o tempo passar.

Lembrei-me que não havíamos lubrificado as correntes das motos após a lavagem, então eu disse para o André, deixe que eu vou lá e lubrifico as duas. Peguei o macaco portátil e o spray.  Levantei a Suzi e rapidamente lubrifiquei a corrente, quando fui fazer o mesmo na do André, tive que colocar o macaco na posição máxima, pois a moto dele está com a suspensão mais alta. Quando fiz o movimento da alavanca o macaco escapou da balança da moto e golpeou meu dedo médio da mão direita. Arrancou uma tampa bem na junta média e aí jorrou uma sangueira danada. O Chão ficou com várias poças de sangue, pois eu tratei de levantar a moto novamente e lubrificar a corrente, só depois é eu tratei de segurar o dedo para estancar, o que demorou um pouco. Um acidente tolo, mas tudo bem, só que depois não me atrevi mais a pular na piscina, pois o dedo ardia bastante.
Fiquei com uma cicatriz de lembrança da viagem...

Logo que o sol baixou fomos procurar o que comer, saímos caminhando e passamos pela praça central, lá há um enorme rolo compressor à vapor, uma máquina e tanto. Como não encontramos nada mais atraente, acabamos comendo um lanche em uma padaria, cuja dona estava mais interessada em assistir a novela do que atender os clientes.


Rolo compressor à vapor, na praça central de Corumbá

Saímos dali e fomos parar na orla do Rio Paraguai, lamentamos não termos ido lá de dia, parece ser muito bonito, há grandes barcos e algumas embarcações da marinha.

Voltamos para o hotel onde eu comecei a árdua e quase infinita tarefa de arrumar minha bagagem, pois eu não havia previsto "compras" no trajeto, como elas aconteceram desde o Peru, as coisas se complicaram.
Fomos dormir tarde, por conta do calor e da minha dificuldade com a bagagem, arrumei, mas não poderia mais tirar nada dos alforges até chegar em casa!

Vejam só que sorte, vimos na TV que caiu um temporal em Campo Grande na tarde daquele dia, houve inundações e algumas ruas viraram rios no centro da cidade.
Agradecemos por não estarmos lá naquele dia!

Mais uma noite no Hotel Águas do Pantanal.
Rodamos no máximo uns 30 km para irmos à imigração e as compras na Bolívia.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Dia 05/01/2011 - Comprei um terreno no Chaco (de Santa Cruz a Corumbá).

A única coisa ruim do hotel Suiza, era que o café é servido a partir das 08:30 h.  Não podíamos nos dar ao luxo de sair tão tarde de Santa Cruz, havia o longo e desconhecido percurso até o Brasil (Corumbá).
Decidimos sair cedo, e tomarmos o café pelo caminho. Descansados, descemos toda a bagagem e montamos nas motos, o calor já era forte às 7 da manhã. Quando eu ia sair do estacionamento, no sub-solo, encostou do meu lado uma Hilux com placa da Bolívia.  Um senhor de uns 30 anos e com um menino de uns 10 como passageiro, me perguntou em português bem claro, para onde eu estava indo.  Disse-lhe que voltava para o Brasil, iria até Corumbá, ele me disse que ia fazer o mesmo trajeto, estava saindo naquele momento também. Lhe perguntei se ele conhecia o percurso e ele respondeu que não, iria descobrir naquele dia. Muito bem, claro que nossos ritmos de viagem eram diferentes, daí que nos desejamos mutuamente sorte e boa viagem.


O hotel Suiza, vista do quarto


Um pequena vista da cidade


O Scooby foi ver o sol nascer em Santa Cruz
Pegamos a própria avenida Canõto no sentido leste, depois da primeira rotatória, a arborizada avenida vira Av. Uruguai, bem ali existe uma praça do outro lado, onde está um Lockheed Constellation, um clássico da década de 50. Paramos na mão onde estávamos e eu tirei uma foto, o grande avião está pintado nas cores da AeroSur (isto é estranho).  Uma pena, não temos tempo para visitá-lo, aproveitamos para perguntar a sobre a saída para Puerto Suarez (logo percebi que a referência era muito distante, era como perguntar em São Paulo onde era o caminho para Porto Alegre). Um motorista nos indicou que naquela avenida tínhamos que sair à esquerda após o cemitério. O que de fato fizemos, só não tínhamos entendido direito onde ir depois, daí que na próxima rotatória saímos à esquerda e não encontramos informação ou um lugar para tomar café.
O Lockheed Constellation
Rodamos um pouco perdidos e, pergunta aqui pergunta ali, finalmente saímos na  Av. Virgem de Cotoca. Um senhor nos disse que tínhamos que ir para Cotoca.  Esta avenida possui uma zona residencial à direita e uma zona industrial à esquerda, passamos por muitos galpões de empresas, aí vimos um posto de gasolina.
Paramos para abastecer, uma morena com um vestido verde muito curto e colado ao corpo, que delineava as "curvas" e deixava à mostra suas belas pernas.  Ela com maquiagem e um batom vermelho, veio nos atender, foi aí que eu ví uma outra menina nos mesmos trajes. Capricharam no uniforme por aqui!
Obviamente que, lhe dissemos que ela era muito bonita, e que era uma surpresa ser atendido por uma modelo.
Claro que com o objetivo de registrar a inusitada frentista, ficamos com vontade de tirar uma foto abraçados com ela, mas pensamos bem, e achamos que seria difícil explicar isto em casa...
Saindo dali, paramos em uma vendinha para comprar água, porém nada de café, seguimos em frente e nesta avenida há o cruzamento com a linha férrea do famoso Trem da Morte. A avenida passa sobre a linha através de um viaduto, mas havia uma obra, então passamos por baixo e ao lado. No cruzamento em nível, tivemos que esperar o trem passar, fiquei frustrado pois não consegui tirar uma foto!
De Santa Cruz até Cotoca são uns 20 km, atravessamos a pequena cidade e acabamos em uma rua de terra onde havia uma obra.  Um senhor de uniforme falava ao celular, daí que pedí informação ao que estava ao seu lado. Este não me entendeu e me deu uma resposta genérica, aí o senhor que falava ao celular fez sinal com a mão para que esperássemos.  Ele muito educado, tinha escutado a nossa pergunta e com paciência e muita clareza nos explicou. Tínhamos que seguir à direita, daí sairíamos na ruta 04 por onde tínhamos de seguir até a ponte sobre o Rio Grande, onde havia a aduana. Após a ponte a estrada virava à esquerda e uns 10 km adiante haveria a saída à direita que, era a estrada nova, daí era só seguir reto até Puerto Suarez.
Nada como encontrar uma pessoa esclarecida! Lhe agradecemos muito e nos desejamos mutuamente, sorte.
Seguindo em frente, encontramos exatamente o que ele disse, foram 25 km onde a estrada corta enormes fazendas, vimos alguns hangares de empresas de aviação agrícola (pulverização aérea) o que significa que o agronegócio por aqui é sério. Chegamos ao Rio Grande, que é imenso, na movimentada aduana nos fizeram sinal para seguirmos, daí atravessamos a ponte nova com quase 1.5 km de extensão sobre o rio. A direita fica a antiga ponte metálica, por onde passa o trem e por onde também passavam os carros  antigamente em uma única pista, com os trilhos no meio.  Cinco km após a ponte a estrada vira à esquerda em El Pailon, toda esta região desde Santa Cruz é perfeitamente plana.  Exatamente 10 km após, havia um entrocamento e uma placa que indicava San José de Chiquitos, como havia uma carreta parada do outro lado, com o motorista sobre a carroceria ajeitando a lona, fui lá perguntar. Ele lá de cima, nem sequer olhou para mim, apenas virou o braço, apontou na direção que a placa indicava e gritou, sigue por ali!   Agradeci...



A recém inaugurada ponte de concreto sobre o Rio Grande, grande mesmo!
Entramos na indicação e, nos deparamos com uma linda pista de concreto, plana indo rumo ao horizonte, deu vontade de enrolar o cabo, mas logo percebemos que havia muitos animais próximos. Em ambos os lados da estrada, enormes plantações a perder de vista. Não havia ninguém na estrada além de nós naquela bela manhã de sol. Fiquei muito feliz em imaginar que aquela estrada poderia ser daquele jeito até o Brasil.
De qualquer forma dava para andar tranquilamente a 120 km/h, pois a visibilidade à distancia era ótima.
A impressão que tínhamos, era que esta obra havia sido inaugurada no dia anterior.

Vimos à distância, um trator que cruzava a pista muito devagar, reduzimos a velocidade e quando paramos entendemos, era um trator com rodas de ferro, daquelas que se usa em plantações de arroz. Dois rapazes loiros (típicos alemães) faziam a travessia, enquanto um dirigia lentamente o trator, o outro ia colocando tábuas à frente das rodas, desta forma, o trator não danificava a pista. Depois que o trator passou, olhando aquela linda pista de concreto imaculada, tive vontade de bater palmas para eles pela consciência.
Após uns 40 km, a estrada passava por umas casas à beira da pista em ambos os lados, havia pessoas sentadas aqui e ali, então paramos no intuito de acharmos o que comer, eram 09:30 h.  Vimos uma casa com uma mesa na frente, saímos da rodovia e entramos no terreno do lugar, o nome da vila era Tres Cruces.
Paramos as motos no quintal, uma senhora veio nos atender, dissemos que desejávamos café, mas ela queria nos servir almoço, foi aí que lhe expliquei que não tínhamos tomado café "desayuno", aí perguntamos se tinha ovos, dissemos que um pão como ovo estava bom, frito, cozido, qualquer coisa.
Sentamos à mesa e vimos ao nosso lado duas crianças, um menino e uma menina, ambos estavam sentados no chão brincando com dois papagaios.  A menina fazia carinho neles enquanto eles comiam arroz em um pires.  Lhes perguntei seus nomes e eles me disseram, inclusive os nomes dos papagaios, mas não me lembro mais. Aí saiu de dentro da casa, pela porta da frente, uma linda moça, devia ter uns 20 anos, cabelos negros e olhos verdes. Ela colocou na mesa os pratos, trouxe uma salada de tomates, depois nos trouxe duas chicaras de café com leite, então a senhora nos trouxe ovos fritos e pão.  Com a fome que estávamos, aquilo, pelo menos para mim, pareceu um banquete. Conversávamos com as crianças enquanto comíamos, dificíl era entender o que eles falavam. Enquanto isto, a jovem entrava e saía da casa, depois ficou no quintal falando ao celular, ela com uma saia azul curta (mas nem tanto) que delineava seu belo corpo, de fato uma linda boliviana.
As crianças e os papagaios


A estrada vista de onde tomávamos café, tudo é novo por aqui

Terminamos de comer e pagamos a fortuna de 12 bolivianos (uns 3 reais).
Ela recebeu, sempre nos olhando com um olhar desconfiado, como alias todos os jovens faziam conosco por aquelas bandas. Será que tínhamos cara de maus?
Eu comentei com o André que nem precisaria almoçar naquele dia, tinha comido muito e bem.
Neste interím, um caminhão trucado entrou pelo quintal e foi atravessando por entre as árvores até que estacionou ao lado, quase lá no fundo. Desceram dois homens jovens, um deles grandão, passou por nós e nos cumprimentamos, aí aproveitei para perguntar sobre o trecho sem asfalto que sabíamos ainda existir.
Ele disse que adiante, em Tinto,  começava o trecho que era de uns 40 km, porém tinha uma opção que era seguir por asfalto pela serra, ele disse que era o que os motoristas de caminhões faziam, incluindo ele.
Tentei descobrir o quanto aumentava o percurso, mas ele, como a maioria do povo, sempre respondia em tempo, disse que com o caminhão carregado, levava três horas, mas que nós de moto, faríamos em uma hora e meia.  Agradecemos, nos despedimos e fomos lá, pena que não vi aquela senhora, dona da casa, queria me despedir dela.
Saindo e, uns poucos metros adiante, havia um posto de gasolina, melhor abastecer.
Uma senhora nos atendeu e enquanto abastecíamos, fiquei observando um senhor que estava parado com uma carroça ao lado da bomba de diesel. A carroça tinha vários tonéis que estavam cheios, já abastecidos. Ele, um senhor de idade, alto de pele muito clara e olhos azuis, um típico alemão usando um largo chapéu.
O que também me deixava curioso era a carroça, com dois eixos e pneus de borracha, puxada por um único cavalo, a mesma era coberta por um toldo. Eu já havia visto algumas delas à beira da estrada neste trecho novo, sempre conduzidas por pessoas loiras, uma até tinha umas crianças de cabelos tão claros que quase pareciam brancos.  Seguramente há uma imigração européia por ali, de onde e desde quando?

Lá vai a carroça, descobrí muito tempo depois, são alemães Menonitas
Mais uma curiosidade minha sobre a história do Chaco, eu já tinha lido sobre a guerra do Chaco, sabia das ocupações agrícolas paraguaias, mas não sabia sobre imigração européia por ali na Bolívia não.
Fui até o banheiro atrás do posto, e quando saí, me deparei com uma galinha que dormia tranquilamente sobre um aparelho de ar condicionado, enquanto eu a fotografava, ela abria e fechava um olho, mas não se mexia, deixei-a curtindo seu sossego.

Sossego no calor do Chaco boliviano
Agora totalmente abastecidos, seguimos pelas imensas retas da nossa estrada quase que particular, por quilômetros, não vimos ninguém além dos animais à beira da pista. Existem uns burricos que são claros, quase brancos e por isto confundem-se com a cor da estrada, que é de concreto, andávamos bem à 110, 120 km/h, porém com os olhos bem abertos.  A ferrovia do trem da morte passa paralela à direita quando viajamos sentido leste, em alguns pontos desaparece, em outros encosta na rodovia.

Fácil andar a 120 km/h

Alivie a mão para tirar a foto e o André foi embora
Foram 85 km até Estância Palmarito, passando por Pascana, Cachitas e Pozo del Tigre. Porém não vimos estas vilas, uma vez que as mesmas ficam às margens da linha do trem.  Em Palmarito há um entrocamento onde, à direita segue uma estrada de terra que vai na direção da linha férrea, à esquerda e asfaltado, está o acesso à El Tinto (este é o desvio pelas serras). Em frente está a ruta que seguimos,  e onde agora inicia-se o trecho de terra.

Paramos ali para decidir o caminho, nisto, parou do nosso lado uma picku-up L-200, o motorista sorridente com mais dois rapazes (deviam ser seus filhos).  Ele conhece bem o trecho, nos disse que seriam 40 km de terra, que o trecho inicial era o pior, depois melhorava, contudo se chovesse nós teríamos sérios problemas, pois segundo ele, haveria muito acumulo de água e o barro muito liso. Contudo, após este trecho, era asfalto até o Brasil.
Como o dia estava lindo, ele nos recomendou seguir por ali mesmo, como alias ele iria fazer também. Nos despedimos e ele seguiu.  Para nós, era importante conhecermos o tal trecho off-road, uma terrinha é sempre bem vinda. Porém, logo nos primeiros 500 metros, já não tínhamos a mesma opinião, enormes ondulações e buracos, uma poeira fina e os constantes desvios de rota, nos faziam andar muito devagar, neste ritmo não chegaremos nunca, pensei.  Logo passamos pelo nosso amigo que murchava os pneus da pick-up, depois, foi ele quem nos passou quando paramos para fazer o mesmo.



Aqui começou a diversão, 37 km no poeirão do chaco


Trechos consolidados, só falta asfaltar

Linha férrea, o trem da morte passa ali
Foram uns 8 km assim, eu olhava no odômetro da moto e no relógio, tentando calcular uma média horária, isto porque o calor era intenso e nos céus começaram a aparecer umas nuvens. Depois o trecho melhorou um pouco, mas era assim, trechos já com a larga pista ainda em terra já consolidada,e bem compactada. Porém, a cada 300 metros haviam montes de terra impedindo a passagem, forçando o tráfego a sair e cortar pelos buracos à beira dos barrancos.  Eu disse "tráfego", pois havia sim. Passavam por nós alguns caminhões, caminhonetes e em vários locais, passávamos por entre os tratores trabalhando. As nuvens de poeira eram imensas, fechávamos o capacete sufocando no calor e quase não se enxergava ao cruzar os outros veículos.
Eu não disse ao André, mas continuava preocupado com as nuvens, ia calculando a média horária e a estimativa para a chuva começar, observando as formações nos céus. Pelos meus cálculos sairíamos do trecho na risca.
As nuvens começaram a encher os céus !
Em um daqueles trechos retos, onde temos que sair para a lateral, havia um enorme lamaçal, muito estranho  isto no meio daquela poeira e secura toda. O André ia na frente, quando entrei no lamaçal  vi que era argila, e, já quase saindo no final do lamaçal, fiz a besteira de tentar desviar de um buraco, a roda dianteira saiu em um segundo.
Como eu já estava psicologicamente preparado para cair, simplesmente saí da moto por cima, porém não dava quase para ficar de pé. A argila escorregadia não permitiria que eu levantasse a moto, o André sabendo que eu sou bração, já estava a postos.  Claro que antes ele fotografou e filmou, nós rimos muito atolados que nem dois porcos naquela lama.  A moto novamente nada sofreu, apenas minha perna direita que raspou em uma parte mais dura e tinha um ralado.


Eu não iria passar ileso por ali !

Lhes apresento meu terreno no Chaco !
Comprei meu segundo terreno nesta viagem, agora eu tinha um terreno em pleno Chaco boliviano!
O barro ali era tão consistente, que até hoje há resquícios no manete da moto.

O André fazendo pose após o resgate, olhem o barro nas botas e calças !

Depois da lamina, mais poeira

Olhem as nuvens ! achei que não iria dar tempo de sair daqui antes da chuva.

Chegando no final do trecho, o André está feliz !
Continuando, chegamos à um trecho onde havia uns morros e ali a terra era vermelha, um trecho com muita agitação, devido às obras. Quando passamos por um canteiro de obras, fiquei mais aliviado, pois isto indicava que era onde devia começar a encrenca toda, naquele momento a chuva era iminente.
Cruzamos uma ponte de madeira, mais uns 10 km e saímos no asfalto, porém nada se chuva, que sensação boa, pois agora poderíamos deixar os braços descansarem um pouco. Saímos já sobre a ponte nova do rio Quimome, entramos no asfalto em uma reta e logo adiante havia um pedágio, vimos ao lado da estrada uma placa, "Restaurante Tranquera". Apesar do nome, o lugar bem simples, nos chamou a atenção, o André propôs irmos lá.  Entramos com as motos no pátio de uma casa, e estacionamos debaixo das pequenas árvores que encontramos naquele terreno arenoso. Um mulher, de uns 30 anos, loura de olhos azuis, veio nos receber.
Muito atenciosa, nos levou até o restaurante, ficamos admirados, um lugar simples, mas muito bem construído com troncos de madeira e o telhado de palha, muito limpo e ajeitado. Tanto nas janelas, como nas portas, haviam telas, por isto não haviam moscas. Fomos ao banheiro, que fica nos fundos no quintal, precisávamos lavar o rosto e as mãos, tanta era a poeira que tínhamos em nós, que eu até fiquei com vergonha de sentar à mesa. O sistema para manter as portas fechadas, e barrar os insetos, é muito engenhoso, uma garrafa PET, cheia de areia, fica pendurada por uma cordinha do lado de fora, a corda passa por uma roldana e se prende na porta. Toda vez que você abre a porta, a garrafa é elevada, assim que você a solta, o peso da garrafa puxa a porta para o seu lugar, fechada. Sentamos à mesa e, aquela mulher muito educada, de traços finos, bonita apesar da aparência um pouco judiada, nos serviu.
Nisto chegou um pessoal da obra da rodovia, uma turma de operários que sentou-se em uma mesa ao fundo, alegres e conversando bastante. Um senhor gordo e mais velho, sentou-se em outra mesa no canto oposto, sozinho e sério.
Pelo não uso do uniforme, e pela "postura", nós comentamos (eu e o André) é o chefe!
De qualquer forma, para nós dois é estranho isto, se fossemos nós os chefes, estaríamos lá no meio da peãozada rindo também!
O almoço foi delicioso, pedimos para aquela senhora tirar fotos de nós, adoramos o tratamento dela, o lugar e a comida.
Havia uma pasta verde muito saborosa, tinha a consistência de purê, mas não identificamos o que era, então ela nos explicou ser purê de batatas com espinafre, até ensinou a receita para o André.
Aproveitei para perguntar a ela, sobre aqueles imigrantes, certamente europeus, e suas carroças. De onde eram ?
Ela não soube explicar, ela mesma nada tinha de boliviana, por isto achei que soubesse.
Nos despedimos muito felizes, pelo almoço e pela surpresa que foi aquele lugar.


O André depois de tomar banho de torneira !

O restaurante "La Tranquera" que de tranqueira não tem nada, é muito bom
Quando entramos na estrada, o que imaginavámos ser um pedágio, na realidade era um posto de controle da policia, tive a impressão que o policial estava nos esperando. Acho que foi porque tínhamos quase chegado no posto e de repente, voltamos para o restaurante. O guarda sozinho já foi dando sinal de parar antes mesmo de chegarmos, aí como sempre, de onde vem, para onde vai etc. Checou nossos documentos e as motos, depois, sempre muito sério, nos liberou.

Olhem que beleza, concreto, estrada para durar.

André e sua DR "In Action" cortando o chaco boliviano
Depois do posto, a estrada era nossa mesmo, com o sol do meio-dia, apenas as borboletas, muitas mesmo, me faziam pena, pois não conseguíamos nos desviar de muitas delas, tomavam conta da estrada. Rodamos 50 km e chegamos a entrada de San José de Chiquitos, bem ali havia um posto, então fomos lá. Um senhor e uma menina sentados, nos disseram não haver combustível, ele nos indicou à direita para irmos até a cidade, que dali não se via. Cometemos aí um erro estratégico, devíamos ter ido lá, mesmo que desviasse uns 10 km. Pensando que haveria alguma outra cidade, pois havia muitas placas indicando muitos nomes de lugares, e que na realidade nem sequer vimos, continuamos na estrada.  Depois dalí passamos por, Las Taperas, San Lorenzo e Ipias, mas como sempre não se avista as cidades, pois estas ficam às margens da linha do trem e, na estrada que é novíssima, apenas as placas as indicando.



Trecho próximo a Ipias

Chegando próximo a serra de Choquis

A torre de Choquis, La Muella del Diablo está aos seus pés.
Lá vou eu em meio as serras
Depois de Ipias, a estrada entra em um trecho de serra, que é lindo, é a serra de Choquis, onde está La Muella del Diablo e a Torre de Choquis. Foram 95 km até passarmos ao lado da torre de Choquis, eu pretendia visitar La Muella del Diablo, porém nosso combustível estava baixo e, com a preocupação de economizar, não propus ao André sairmos da estrada para irmos até lá, uma pena. O lugar é lindo, e a rodovia neste trecho também. Passamos por Limoncito onde uma placa indicava 15 km para Roboré, a moto do André entrou na reserva com 295 km rodados e finalmente chegamos à Roboré, exatos 300 km depois do abastecimento em Tres Cruces.

Não tínhamos mais combustível para seguir viagem, entramos em Roboré por uma larga rua que passou pela igreja matriz e uma praça, nos indicaram que o posto era no fim da rua virando à direita. Após a curva, a rua já era de terra, viramos e atravessamos uma pequena ponte onde, embaixo no rio, havia bastante gente, fiquei doido para pular naquela água. Foi aí que vimos a fila para abastecer.
O posto não é um posto, é uma bomba ao lado de um tanque suspenso, tudo sob o sol escaldante. Fomos seguindo a rua de areia até fim da fila, daí que não conseguíamos parar as motos, pois a areia fofa não firmava o descanso lateral. Aí ficamos ao lado das motos, segurando-as, porém o sol era absurdo,  era insuportável ficar ali.


O fim da fila é lá no fundo da rua !
Vimos uma sombra sob umas árvores lá na frente, aí conversamos com o motorista do carro que parou atrás de nós, explicamos que iríamos parar as motos lá, mas continuávamos na fila. Empurramos as motos até debaixo das árvores e eu já fui explicando que não estávamos furando a fila. Difícil foi conseguir deixar as motos em pé, o André achou uns pequenos pedaços de madeira e aí conseguimos, finalmente estacionar as motos. A água que tínhamos na bagagem estava quente da exposição ao sol, então viramos as garrafas sobre nossas cabeças, e foi um alívio.  Enquanto o André saiu caminhando em direção ao rio, eu arranquei as botas, tirei a parte de baixo da calça (ela tem um zíper que a faz virar uma bermuda), peguei o chinelo que estava no bolso lateral do alforge e sentei-me sob a sombra, ufa! Amarrei as botas na moto, assim pude ficar à vontade de chinelos.


O único jeito de termos um alivio, banho de garrafa !


A nossa sombra salvadora
Foi aí que vi, no terreno da casa onde havíamos parado em frente, que uma menina colocou uma mesa com uma jarra e uns copos sob a sombra de uma grande árvore. Suco de laranja natural, um boliviano o copo, e então ela trouxe umas cadeiras plásticas. Que beleza, sombra e suco de laranja!  Nem vi quantos copos tomei, sei que guardei umas moedas para quando o André voltasse, só que ele voltou com duas garrafas de água, depois de ter tomado uma outra inteira em um gole.
Uma pena, mas ele viu que o rio não era limpo o suficiente para um banho.
Conversamos bastante com o pessoal na fila, especialmente com uma senhora que falava bem Português e estava bastante curiosa sobre nossa viagem, as motos etc. Ela e o filho, estavam indo para San José de Chiquitos (com uma van), e nos disse que voltaria no mesmo dia para Corumbá. Achei meio estranho,  pois estávamos por volta das 15:00 h, eram 600 km ida e volta de Roboré a San José, depois uns 250 de Roboré até Corumbá!  Sei lá o que eles estavam indo buscar em um bate e volta destes, não perguntei...
Ela falou muito dos perigos da estrada à noite, assaltos etc. (só que eles iriam voltar de madrugada né).
A fila andou e agora não tinha mais jeito, tivemos que ir para o sol. Quem abastecia os veículos era um soldado do exército!


Agora não tem mais jeito, sob o sol perto do abastecimento
Daí que, quando chegou a nossa vez, um senhor com uma prancheta, devia ser sargento, resolveu dar uma geral nas motos e nos documentos, sob aquele sol de 43 graus, fiquei tão feliz!
Mais feliz ainda, quando descobri que eles "metiam a mão" na quantidade abastecida, pois minha moto tinha entrado na reserva na entrada da cidade e eles me cobraram 17 litros!  Quando quis reclamar o André me disse, cara, é o exército, deixa para lá. Eu já tinha reclamado muito de um senhor que tinha furado a fila, mas como o André disse, era de idade, eu é que estava de cabeça quente, literalmente, sob um sol de 43 graus!

Saímos dali, margeando a linha do trem da morte e paramos no bar onde o André tinha comprado água, havia uma cobertura, sentamos sob a sombra e enquanto conversávamos com o dono do bar, cujo pai era brasileiro, fomos recolocando as botas etc, e sempre tomando água.
Bem, faltavam entre 200 e 250 km, segundo as informações que nos deram, combústivel nós tínhamos. Voltamos para a estrada às 16:00 h e andamos bem, mantendo por volta dos 120 km/h, novamente estrada livre e um lindo visual.
Em uma grande reta no meio do nada, vi à distância, um carro branco parar no acostamento no sentido contrário, conforme nos aproximamos pude ver que era um carro velho, até pensei, coitado será que o cara quebrou ou ficou sem combustível?
Foi então que vimos que ele se encostava na lateral do carro, tentando esconder um grande arma de cano longo, passamos direto por ele, que ficou nos olhando, uns metros à frente o André alinhou ao meu lado e perguntou, você viu?
Falei, ví sim, não sei o quê ou quem ele vai caçar, mas o trabuco era grande!
Continuamos cortando aquela bela estrada, depois de uma hora aproximadamente rodando, o André propôs uma parada no acostamento, achei que era para fazer um xixi, era uma grande reta e nós paramos na sombra que já aparecia do lado direito da estrada.
Foi aí que o André me perguntou, você está escutando este som?   De fato, um som de floresta, canto de pássaros e som de insetos, nada mais. Ficamos ali parados, sem dizer nada por alguns minutos, só curtindo aquela simples maravilha da natureza.
Como aquilo é relaxante para quem está disposto a se desligar do mundo por alguns instantes. Não me lembro quanto tempo ficamos desfrutando daquele fim de tarde incomum.


A beleza do Chaco no meio da tarde

Ficamos aqui escutando os sons da natureza
Somente o som dos pássaros e dos insetos
Lá na frente havia um falcão tentando pegar algo no asfalto, pelo zoom da câmera eu tentava fotografá-lo, foi aí que ví que alguém vindo pelo acostamento de bicicleta, havia um carro vindo também , e parecia que, bem devagar acompanhava a bicicleta.
Alertei o André, nosso relax acabou, tratamos de guardar a máquina fotográfica e colocar os capacetes, porém antes do sujeito se aproximar o carro passou, acho que o motorista tinha nos visto e ficou preocupado também, porém conosco.
Aceleramos e passamos pelo ciclista que não tinha cara de bons amigos, melhor não dar bobeira por estes lados, não pude ver com ele, arma qualquer, mas é bom prevenir.

A tarde foi caindo e íamos ansiosamente nos aproximando de Puerto Suarez e quando chegamos lá, era dia ainda, mas o sol já não brilhava, no horizonte havia uma cadeia de morros com cumes arredondados, eu julguei estarem já no território brasileiro (e de fato estão).
Vimos em uma rotatória, um posto de gasolina e decidimos ir lá, nossa ideia era aproveitar o preço boliviano e assim "queimarmos" um pouco do dinheiro boliviano que nos restava. Sem chance, nada de combustível.
Continuamos, as placas indicavam 15 km para a fronteira com o Brasil, na realidade ao contrário do que eu imaginava, a cidade fronteiriça é Puerto Quijano.
Chegamos em uma rotatória onde já havia a indicação da fronteira, claro que paramos para registrar o momento, uma vez que nas aduanas é sempre proibido fotografar.
O local era também a portaria de uma grande empresa, havia do outro lado da rodovia uma enorme fila de caminhões estacionados, no tempo em que ficamos alí, pelo menos dois deles saíram e seguiram rumo Bolívia à dentro.
No segundo, observei o motorista com um papel na mão, alguma nota fiscal ou liberação, entrar na cabine e ligar o grande caminhão tanque bi-articulado, eram todos da mesma empresa e tinham placas do Brasil.
Quando ele lentamente passou ao nosso lado, perguntamos ao motorista o que é que ele transportava, ele respondeu passando, gasolina!
Lhe desejamos boa viagem, eu fiquei pensando no quanto a Bolívia depende do Brasil, e depois, que aquele caminhão não deveria cruzar todo o percurso que fizemos, pois não vimos nenhum no caminho.



Estamos à dois passos do Brasil !


Feliz sentimento de missão cumprida
Saímos dali animados e logo chegamos à fronteira, mas estranhamente, a aduana e a imigração bolivianas estavam fechadas, eram 19:00 h. Havia apenas um soldado, que disse para voltarmos no dia seguinte para fazermos a saída!  Isto não estava nos nossos planos...
Não havia o que fazer, seguimos e logo à frente havia a receita federal brasileira, paramos mas não fomos revistados, apenas conversamos um pouco com o fiscal, que nos indicou um hotel em Corumbá.
Menos mal, fomos lá, porém erramos na rotatória e fomos parar em um bairro residencial. Mas como é boa a estranha esta sensação de estar "em casa", é uma coisa intangível mas plenamente clara, o "jeito" brasileiro está presente ali..
Pedimos informação e logo achamos o hotel Águas do Pantanal, simples, com bom preço, e um enorme estacionamento.
Quando entramos no hotel já era noite, arrumamos nossas coisas em um quarto no térreo, o calor era sufocante. Estávamos muito cansados, tomamos banho, e agora com roupas leves, fomos para a rua.
Não havia muitas opções, procuramos um restaurante que nos indicaram, mas estava fechado, então acabamos comendo um lanche com cerveja, em um bar numa esquina da rua do hotel. Agora haviam os orelhões para podermos ligar para casa.

Depois de mais um longo dia destes não foi difícil dormir, apesar do calor. Corumbá é um forno!

Rodamos neste dia 830 km em aprox. 12 horas.  Santa Cruz de La Sierra - Bolívia até Corumbá - Brasil.
Hotel Águas do Pantanal - Rua Dom Aquino, 1457 - Corumbá Centro.